quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Outro fragmento de "O Palácio dos Vales", o romance que escrevi

- Pode deixar, Mineiro, vou comprar umas terras aqui, no Rio de Janeiro, que vai começar na beirada da areia da praia, e vai terminar só na divisa com o seu Estado, vou dar um *arrego pro Governador de lá e pro Governador daqui, vou pagar umas máquinas pra escavar essas terras, abrindo um braço d'água bem largo, que vai pegar do mar do Rio de Janeiro, até a divisa do Estado de Minas, só pros Mineiros como você poderem tomar banho de mar também!
Igualzinho aos Cariocas, os Capixabas e os Paulistas!
Beto diz isso enquanto se despede de Mineiro, morador antigo da comunidade.
Enquanto Beto desce a escadaria ouve de longe, Mineiro respondendo ao seu comentário:
- Meu filho: "o mar chora por não banhar o Estado de Minas Gerais"...
Beto sorri mais uma vez e sinaliza com a mão, fazendo sinal de positivo enquanto pensa consigo mesmo: esse velho é mesmo uma figura...
Enquanto desce a escadaria, Beto percebe que, pouco abaixo, uma espécie de discussão está em curso.
É Grilo e Doguinho, seus comparsas, no mundo do crime.
Eles discutem com um morador e um deles está apontando a arma, e pode atirar a qualquer momento.
O morador é Tião Mandinga, um respeitado pai de santo. Tião Mandinga possui na comunidade, um centro espírita muito visitado. Tanto por moradores do local, como por gente de todo canto do Rio de Janeiro.
Beto chega por trás dos três e vê Tião Mandinga acuado, aparentando estar com medo. Talvez, por estar na mira de uma arma de fogo.
Beto pergunta: mas que porra é essa que está acontecendo aqui?
Os três se viram pra trás e vêem Beto, já próximo e com cara de quem não está gostando.
Grilo, o que estava apontando a arma para o morador responde:
-Porra patrão, esse cara aí está desrespeitando o lema da favela que diz "fé em Deus".
Beto, ainda sem entender nada, pergunta: por que esse morador está desrespeitando o lema, Grilo?
-Porque ele é macumbeiro, porra! - Grilo responde, exaltado-.
-Pra mim, macumbeiro não tem fé em Deus, macumbeiro tem fé é no diabo!
E se ele vier pra cima de mim *dando papo de ter fé no diabo, eu *estalo ele na hora, mano.
-Cara, -disse Beto - você não sabe de nada mesmo... Nunca ouviu o Hanóy dizer que: aqui na comunidade a gente pode viver tranquilo, ter religião e fé em quem a gente quiser?
-Se ele quiser ter fé em Deus ou no capeta, ele pode ter o quanto ele quiser. A opção é dele e ele é livre pra fazer isso.
Outra coisa: tá ligado que matar macumbeiro dá azar né, e ninguém, a não ser eu, pode matar alguém nessa favela, sem a ordem do Hanóy.
Se você o matasse, eu ia ser obrigado a *passar fogo em você, vacilão.
Agora deixa de *caô, dispensa o *cascudo pra ele *se adiantar e deixa eu passar nessa porra!
Beto diz isso e continua descendo os degraus pra poder passar.
Beto está descendo em direção à eles, quando Tião Mandinga começa a ameaçar Grilo e Doguinho.
-Vocês não sabem com o quê vocês mexeram, vou mandar  exú matar vocês, vou fazer trabalho forte pra vocês morrerem lentamente na mão dos *homens dos pés pretos, vocês irão se arrepender, eu vou... De repente: bang! Ouve-se um barulho e um homem cai, à beira da escadaria, atingido por um disparo na cabeça, e é Beto, o autor. Ele mesmo! Em seguida, se aproxima e descarrega as munições da sua arma na cabeça do pai de santo, que morre imediatamente.
Uma cena horrível, desumana e extremamente cruel.
Grilo pergunta surpreso:
-Mas você não disse que não tinha problema nenhum adorar o capeta, aqui, na comunidade e que matar macumbeiro dá azar?
-Disse mesmo, - responde Beto -, enquanto troca o pente da pistola por outro, carregado, e guarda o que acabou de descarregar no bolso.
-Ele poderia viver e adorar quem ele quisesse aqui, na comunidade.
O que ele não podia, era ameaçar nenhum dos funcionários dessa boca de fumo.
Mexeu com vocês, parceiro, mexeu comigo. É isso que eu faço com quem mexe com os nossos soldados. Se ameaçar um, vai estar ameaçando todos nós.
Procura o Juca Maluco, diz pra ele que o Beto mandou ele pegar esse infeliz e desovar longe daqui.
Deixa eu passar, porque essa conversa toda já me atrasou pra caralho.
Ele passa, se volta pra Grilo e diz:
Aí, olhe pra ele e olhe pra mim: quem é que teve azar aqui?
-Dito isso, Beto desce tranquilamente a escadaria, sorrindo e assoprando o orifício do cano da sua pistola como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, Grilo e Doguinho saem, à procura de Juca Maluco, o homem que faz esse serviço toda vez que é solicitado.

Dialeto "Carioquês" utilizado nesse fragmento:

*Arrego = propina, dinheiro sujo.
*Passar fogo = matar, assassinar
*Dando papo = dizendo, falando
*Estalo ele = Mato ele, assassino ele
*Caô = conversa fiada
*Se adiantar = seguir em frente
*Homens dos Pés pretos = Polícia Militar
*Cascudo = Pessoa com experiência de vida

Créditos da imagem: divulgação.

Você é o meu Sol (letra de música)

Sempre que você sorri Eu fico muito mais feliz E o meu dia passa A ter mais graça. Eu ia aonde o vento me levasse Igual a uma fol...