quinta-feira, 13 de junho de 2019

Mil planos (letra de música)

Foi tudo de repente 
Um pouco fora do normal
Mas a favor do vento
Tudo pode  acontecer

A vida prega peças 
Que não dá pra explicar 
Eu sou tão distraído
O que posso fazer...

Você é  linda,  
Se aproximou de mim,
Gosta de Nirvana,
Vinicius e Jobim,

Assiste Os Simpsons, 
Coleciona carrinho

E ainda me dá carinho
Todo dia...

Então deixo acontecer 
Você é incrível demais
E vive fazendo mil planos
Pra "nós  viver" em paz.

Márcio Diniz.

Imagem: divulgação.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O plano (letra de música).



Deixo a vida me levar,
Você nunca soube o que é isso.
Sempre apressada, tem que estudar,
Tem que dar aula.
Tanto compromisso.

Quando quer me provocar,
Solta o cabelo, veste um vestido
Lança perfume pelo ar,
Lábios vermelhos, sorriso lindo.

Confesso que eu sempre
Penso em você.
Às vezes não tem jeito,
O que é que eu posso fazer?
E até que eu gosto dessa vida
De bebida e diversão.

Mal aprendi a me virar,
Você sabe o quanto eu insisto.
Vivo atrasado para ensaiar músicas novas,
Que dizem que eu preciso.

Uma coisa eu não posso negar,
Esse seu jeito mexe comigo.
E se eu não te procurar,
Eu posso estar correndo perigo.

O plano é um dia
Casar com você;
Dormir agarradinho, assistir Simpsons na tv;
Cuidar do seu jardim e dos nossos  bichinhos de estimação.

Márcio Diniz

terça-feira, 13 de junho de 2017

Você é o meu Sol (letra de música)


Sempre que você sorri
Eu fico muito mais feliz
E o meu dia passa
A ter mais graça.

Eu ia aonde o vento me levasse
Igual a uma folha seca
Com minhas raízes
De fumaça.

Princesa, sem você pedir
Te dei meu coração
E então eu fiz da nossa história
Essa linda canção

Porque quando eu te beijo
Tudo é só felicidade
E o seu abraço
Aquece de verdade

Vem comigo
Deixa eu te sentir
Eu sou relva
E você é, meu sol

E sempre que você se afasta
Eu escureço
Sinto tanto a sua falta
Que anoiteço

Mas eu olho as estrelas
E o seu brilho a refletir
E sinto que ainda
Está em mim

Amor, eu gosto de tocar
Nos seus cabelos,
Seu sorriso, seu olhar,
Seu corpo inteiro

Prometo te proteger
E estar sempre ao seu lado
Ser o seu
Eterno namorado

Vem comigo,
Deixa eu te envolver
Eu sou céu
E você é, meu sol


Márcio  Diniz.

Imagem: divulgação. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Mas, que?


Aqui, na minha rua, parou um caminhão enguiçado.
O motorista, pelo jeito, não entendia nada de mecânica a diesel.
Um vizinho meu, que possui o hábito de dizer que é mecânico e que era ele quem consertava os caminhões, na época que ele serviu no Exército Brasileiro se ofereceu pra ajudar, olhou o motor pra lá, olhou o motor pra cá e disse para o motorista: "esse motor fundiu, tem jeito não".
Ao ouvir a sentença do "profissional" o motorista entrou literalmente em pânico e começou a se queixar da sorte.

Aguardei o cara terminar de "desabafar", fui em casa, retornei de lá com uma lata de antioxidante spray (WD), pedi ao meu vizinho para que ele fosse até a cabine do possante dar a partida. 
Enquanto ele dava a partida, eu borrifava o antioxidante spray no carburador do caminhão. 

Não demorou nem dez segundos e o motor funcionou. 
O meu vizinho saiu da cabine surpreso com o resultado e enquanto saía da cabine, me perguntou: rapaz, o que você fez pro motor desse caminhão funcionar?

Respondi: nada demais, cara! Você foi mecânico do Exército Brasileiro, não foi?
Então... Lá, com certeza você tinha acesso a qualquer ferramenta que você precisasse pra consertar qualquer máquina.
Enquanto eu fui ajudante de caminhoneiro no *Apavorante, o caminhão do *João do Km *399, de Seropédica. 
Lá, a gente nunca tinha ferramenta pra nada.

Tínhamos que improvisar sempre. Sem contar que todos nós éramos viciados em algum tipo de droga. 
E com o nosso caminhão não era diferente: ele era "viciado" em WD (antioxidante). 
Coisa que, infelizmente, está acontecendo com esse caminhão aqui.

O dono do caminhão me deu uma boa grana por eu ter dado jeito no probleminha, eu dei uma parte dessa grana para  o meu "vizinho mecânico",   a lata de spray antioxidante eu dei para o amigo caminhoneiro, expliquei-lhe como utiliza-la, caso fosse necessário e o alertei que, nesses casos, o melhor a se fazer é parar numa boa oficina de motores movidos a diesel e dar uma geral no motor do seu possante.

Moral da história: você pode até pensar que não, mas tem horas que até a mais poderosa das máquinas necessita de alguma espécie de 'droga' pra "relaxar" e mostrar serviço.

Márcio Diniz 


Imagem: divulgação.

sábado, 25 de março de 2017

Você é o meu sol (o céu é um filtro). Letra de música


Um abraço, um aperto de mão,
Um sorriso, um gesto de atenção,
Mas quando é com você, 
É tão bom

Eu nunca me senti culpado,
Será que estou fazendo algo errado?
Mas você me envia tantos sinais

Eu já falei pra você
Coisas que ainda quero ser,
Que eu quero ter,
Que eu não pretendo me afastar de você,

Ou respeitar seu compromisso,
Nem te tratar como amigo
E ainda viver nesse mundo onde:

O céu é um filtro
E você é o meu sol
Quero ficar contigo,
Mas eu sei:
Na minha vida, quase nada dá certo.

Um abraço, um aperto de mão,
Um sorriso, um gesto de atenção,
Mas quando é com você, 
É tão bom

Eu nunca me senti culpado,
Será que estou fazendo algo errado?
Mas você me envia tantos sinais

Eu já falei pra você
Coisas que ainda quero ser,
Que eu quero ter,
Que eu não pretendo me afastar de você,

Mas se eu pudesse eu iria preparar
Seu café da manhã, 
Almoço e jantar, 
Te apresentar um novo mundo onde:

O céu é um filtro
E você é o meu sol
Quero ficar contigo,
Mas eu sei:
Na minha vida, quase nada dá certo.

Márcio Diniz.

Imagem: divulgação. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Matilde, Eu Sou de Libra


O som das correntes do meu portão  rasgam o silêncio da madrugada enquanto eu, embriagado, adentro em meu lar.
Acredito que isso deve incomodar alguns vizinhos. Mas juro solenemente que, não faço isso por mal.

A casa nem sempre está organizada, mesmo assim é sempre bom estar por aqui. Tenho que tomar cuidado ao abrir a geladeira, pois a porta quebrou e agora, se não remove-la completamente, ela cai sobre quem a abrir. Tive que desativar o chuveiro porque o registro não funciona mais. Então, enquanto eu não resolver esse "contratempo", quando vou tomar banho, utilizo a torneira do lavatório para encher um balde e após isso, lanço  a água do balde sobre mim. Pra falar a verdade, nem sinto tanta falta de um chuveiro nesse banheiro...

Quem iria reclamar do chuveiro desativado seria você! Mas, fazer o que, né... Meu estilo de vida é assim: livre e único. A tv é modelo hd, mas ainda não contratei uma operadora de tv a cabo. A mesma encontra-se, sem antena. Mesmo assim, não sei por que, ela sintoniza o Canal da Rede Bandeirantes. Ainda bem, porque ao menos dá para assistir "Os Simpsons"... O pessoal do telefone fixo irá instala-lo, no próximo dia 21. 

Difícil coisa é me ver caminhando pela rua, pois depois que você se foi, perdi toda vontade que eu tinha de sair. Seja para onde for.
E desse jeito eu sigo um ritual de continuidades. Essa tem sido a minha rotina, minha vida...

Às sextas, recebo a Nossa Amiga, a Diana, aquela Streapper Paulistana. Lembra dela, né? Aquela, de Guarulhos, de família Circense. Como ela vai ficar longa temporada no Rio de Janeiro, tomei a liberdade de convidá-la e há mais ou menos um mês, Ela vem para cá todo fim de semana. Adoro tocar violão para ela enquanto ela canta e toca a sua gaita. 

A onda de positividade é tão intensa que mal percebemos que estamos nus. Ainda recebo convites para Sair. Querem que volte a frequentar aqueles... Como você chamava mesmo? Ah, sim, lembrei: "ambientes requintados".
Querem que eu fale, escreva, componha, cante, toque o meu violão, sente-se à mesa, beba e coma ao lado deles... Mas eu não vou... Não, eu não vou mais...

Desde que eu me vi sem Você, eu não sinto mais vontade, nem inspiração para nada disso. Prefiro ficar aqui, no meu lar. Incomodando aqueles vizinhos mais frustrados e rancorosos com o barulho das correntes do meu portão, toda vez que chego em casa de madrugada com os nossos amigos embriagados, tendo que ter cuidado ao abrir uma geladeira que tem que ter a porta totalmente removida da sua estrutura absoluta, subindo e descendo de uma cadeira, levando a única lâmpada que possuo em casa de um lugar para o outro, toda vez que anoitece e preciso enxergar alguma coisa dentro de casa, aguardando o pessoal vir instalar o telefone fixo e a tv a cabo, tomando banho de balde, comendo aquele bom e velho "bife com fritas" e bebendo suco de cajú estupidamente gelado no almoço...

E certas noites, quando a saudade bate mais forte: bebo um bom vinho rascante, fumo um cigarro, filosofo a respeito da beleza desse amor, da liberdade, da vida, da paz de espírito. E enquanto o efeito do álcool domina os meus neurônios, procuro encontrar a melhor forma para escovar os dentes das bocas do meu velho fogão.

Márcio Diniz.

Itaguaí, Vila Margarida, 04/11/ 2016.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Dia de chuva

   
O poeta  sonda corações.

Usa palavras para trazer esperança, carinho, amor.

Compreende a dor do que sofre.
Seja por qual motivo for.

Eu amo ser poeta, doutor!

Márcio Diniz. 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Outro fragmento de "O Palácio dos Vales", o romance que escrevi

- Pode deixar, Mineiro, vou comprar umas terras aqui, no Rio de Janeiro, que vai começar na beirada da areia da praia, e vai terminar só na divisa com o seu Estado, vou dar um *arrego pro Governador de lá e pro Governador daqui, vou pagar umas máquinas pra escavar essas terras, abrindo um braço d'água bem largo, que vai pegar do mar do Rio de Janeiro, até a divisa do Estado de Minas, só pros Mineiros como você poderem tomar banho de mar também!
Igualzinho aos Cariocas, os Capixabas e os Paulistas!
Beto diz isso enquanto se despede de Mineiro, morador antigo da comunidade.
Enquanto Beto desce a escadaria ouve de longe, Mineiro respondendo ao seu comentário:
- Meu filho: "o mar chora por não banhar o Estado de Minas Gerais"...
Beto sorri mais uma vez e sinaliza com a mão, fazendo sinal de positivo enquanto pensa consigo mesmo: esse velho é mesmo uma figura...
Enquanto desce a escadaria, Beto percebe que, pouco abaixo, uma espécie de discussão está em curso.
É Grilo e Doguinho, seus comparsas, no mundo do crime.
Eles discutem com um morador e um deles está apontando a arma, e pode atirar a qualquer momento.
O morador é Tião Mandinga, um respeitado pai de santo. Tião Mandinga possui na comunidade, um centro espírita muito visitado. Tanto por moradores do local, como por gente de todo canto do Rio de Janeiro.
Beto chega por trás dos três e vê Tião Mandinga acuado, aparentando estar com medo. Talvez, por estar na mira de uma arma de fogo.
Beto pergunta: mas que porra é essa que está acontecendo aqui?
Os três se viram pra trás e vêem Beto, já próximo e com cara de quem não está gostando.
Grilo, o que estava apontando a arma para o morador responde:
-Porra patrão, esse cara aí está desrespeitando o lema da favela que diz "fé em Deus".
Beto, ainda sem entender nada, pergunta: por que esse morador está desrespeitando o lema, Grilo?
-Porque ele é macumbeiro, porra! - Grilo responde, exaltado-.
-Pra mim, macumbeiro não tem fé em Deus, macumbeiro tem fé é no diabo!
E se ele vier pra cima de mim *dando papo de ter fé no diabo, eu *estalo ele na hora, mano.
-Cara, -disse Beto - você não sabe de nada mesmo... Nunca ouviu o Hanóy dizer que: aqui na comunidade a gente pode viver tranquilo, ter religião e fé em quem a gente quiser?
-Se ele quiser ter fé em Deus ou no capeta, ele pode ter o quanto ele quiser. A opção é dele e ele é livre pra fazer isso.
Outra coisa: tá ligado que matar macumbeiro dá azar né, e ninguém, a não ser eu, pode matar alguém nessa favela, sem a ordem do Hanóy.
Se você o matasse, eu ia ser obrigado a *passar fogo em você, vacilão.
Agora deixa de *caô, dispensa o *cascudo pra ele *se adiantar e deixa eu passar nessa porra!
Beto diz isso e continua descendo os degraus pra poder passar.
Beto está descendo em direção à eles, quando Tião Mandinga começa a ameaçar Grilo e Doguinho.
-Vocês não sabem com o quê vocês mexeram, vou mandar  exú matar vocês, vou fazer trabalho forte pra vocês morrerem lentamente na mão dos *homens dos pés pretos, vocês irão se arrepender, eu vou... De repente: bang! Ouve-se um barulho e um homem cai, à beira da escadaria, atingido por um disparo na cabeça, e é Beto, o autor. Ele mesmo! Em seguida, se aproxima e descarrega as munições da sua arma na cabeça do pai de santo, que morre imediatamente.
Uma cena horrível, desumana e extremamente cruel.
Grilo pergunta surpreso:
-Mas você não disse que não tinha problema nenhum adorar o capeta, aqui, na comunidade e que matar macumbeiro dá azar?
-Disse mesmo, - responde Beto -, enquanto troca o pente da pistola por outro, carregado, e guarda o que acabou de descarregar no bolso.
-Ele poderia viver e adorar quem ele quisesse aqui, na comunidade.
O que ele não podia, era ameaçar nenhum dos funcionários dessa boca de fumo.
Mexeu com vocês, parceiro, mexeu comigo. É isso que eu faço com quem mexe com os nossos soldados. Se ameaçar um, vai estar ameaçando todos nós.
Procura o Juca Maluco, diz pra ele que o Beto mandou ele pegar esse infeliz e desovar longe daqui.
Deixa eu passar, porque essa conversa toda já me atrasou pra caralho.
Ele passa, se volta pra Grilo e diz:
Aí, olhe pra ele e olhe pra mim: quem é que teve azar aqui?
-Dito isso, Beto desce tranquilamente a escadaria, sorrindo e assoprando o orifício do cano da sua pistola como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, Grilo e Doguinho saem, à procura de Juca Maluco, o homem que faz esse serviço toda vez que é solicitado.

Dialeto "Carioquês" utilizado nesse fragmento:

*Arrego = propina, dinheiro sujo.
*Passar fogo = matar, assassinar
*Dando papo = dizendo, falando
*Estalo ele = Mato ele, assassino ele
*Caô = conversa fiada
*Se adiantar = seguir em frente
*Homens dos Pés pretos = Polícia Militar
*Cascudo = Pessoa com experiência de vida

Imagem: divulgação.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Outro fragmento de: "O Palácio dos vales", o romance que escrevi

-Pode falar parceiro, estou na escuta.
Beto atende o telefone enquanto desce do ônibus que faz a linha Central - Vale dos Reis e segue caminhando às pressas, em direção a outro ponto de ônibus para embarcar no ônibus que já está de saída.
-Beto, estou te aguardando aqui praia do Leme.
Diz Pastor.
-Tranquilo, Pastor. Já estou dentro do ônibus, daqui há alguns minutos *tô brotando por aí. Já é?
-Essa parada, meu parceiro. Viu se alguém te seguiu? Diz Pastor parecendo estar preocupado com algo.
-Qual foi parceiro? Tu tá pensando que eu sou algum otário? *Palmeei tudo antes de dar esse perdido.
-O Hanóy já sabe que eu tenho uns *caôs pra *desenrolar fora da favela. Por isso que eu to tranquilo. Ninguém é maluco de me seguir, rapaz!!
Fique tranquilo, vou até aproveitar que vou aí, na Praia do Leme pra *pagar um pingo nessa água aí.
Já é então parceiro. Pastor fala isso e em seguida finaliza a ligação.
Beto guarda seu telefone no bolso. Ele já se encontra dentro do ônibus, enquanto sente seu corpo sendo pressionado por alguém que passa por ele e logo depois, para e fica de pé, de frente para ele.
-Caralho!! Mas, que merda!! Essa porra desse ônibus vive lotado, porra? Beto reclama em voz alta e bastante irritado.
-Moço, se você não gosta de ser espremido, sugiro que compre um carro. Respondeu a pessoa que havia passado por ele e o pressiomado contra os outros passageiros. Era uma mulher, uma bela mulher.
Beto olha fixamente pra ela, enquanto ela continua o seu sermão: Não gostou não? Compre um carro pra você. Assim você não vai mais ser pressionado e ainda por cima, vai poder ir e voltar para onde quiser, a hora que quiser.
Ao ouvir isso Beto fica muito nervoso, chega até mesmo a colocar a mão na cintura e a pensar: vou dar um tiro bem no meio da cara dessa filha da puta. Onde já se viu? Falar assim comigo no meio de todo mundo? Se essa piranha soubesse com quem está falando, garanto que não teria essa coragem.
Beto pensou bem e viu que não podia fazer isso. Pelo menos, não ali. Não naquela hora. Pensou bem e preferiu ficar calado e apenas observar aquela bela mulher que ainda estava na sua frente, olhando para ele, com certo desdém.
-Não aguento mais essa porra de ter que pegar ônibus. Beto gritou. Dessa vez, mais alto ainda do que na primeira vez.
-Moço...
Beto ouve uma voz suave e em tom de muita tranquilidade.
Ele olha para o seu lado e vê uma senhora bem baixinha, gordinha, totalmente pressionada, sufocada e desconfortável em meio aos outros passageiros.
-Eu pego esse ônibus todo dia nesse mesmo horário e ele sempre está lotado. Se o senhor tiver condições de fazer o que a moça falou com o senhor naquela hora, faça porque o senhor vai se sentir melhor, moço.
Não quero que o senhor me leve à mal mas, eu nunca vi o senhor por aqui antes.
Beto olhou bem para aquela mulher... Ele não costuma sentir pena de ninguém, mas, ao ver as condições daquela senhora. Ela aparentava ter uns cinquenta e poucos anos. Parecia estar bastante cansada pela lida do dia a dia. Tinha também, roupas simples, um cabelo enorme e falava manso e trazia consigo uma bolsa enorme. Provavelmente, coisas que utiliza no seu dia a dia de trabalhadora. Essa mulher deve ser *bíblia", pensou.
Em seguida, olhou para fora do ônibus, que a essa altura, passava em frente a uma agência de veículos, ele olha para a agência e vê diversos modelos de carro, todos lindos, limpos e principalmente: vazios e espaçosos, ele olha para dentro da bolsa que ele carrega consigo, e vê o montante de dinheiro (muito dinheiro mesmo), fruto do que ele desvia todo dia da boca-de-fumo do seu amigo e comparsa Hanóy.
Dinheiro que aliás, ele está indo entregar nas mãos de Pastor, seu comparsa, para guardar e aplicar em algum plano diabólico de traição contra o negócio do seu até então, melhor amigo.
Então, ele olha para ela de novo. A mulher, sem entender nada, vendo-o meio que em estado de transe, diz:
-Moço, o senhor está se sentindo bem?
-Sim, estou muito bem, aliás, nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Respondeu Beto, já motivado a descer do ônibus e tomar uma atitude totalmente inesperada.
-Motorista, pare este ônibus agora!! Vou descer!! Beto diz isso e em seguida tenta descer, quando é impedido pelo cobrador que não permite que o motorista abra a porta para ele descer.
Beto então, pergunta:
-Não vai deixar eu descer não?
-Depois que o senhor pagar pela passagem, o senhor poderá descer e seguir para onde quiser. Responde o cobrador sorrindo para ele, como se tivesse pensando que ele quisesse dar o famoso *calote".
-Beto então diz: porra!! Esqueci que eu não estou na favela (é que na favela Vale dos Reis, ninguém paga passagem de ônibus, devido a uma ordem dada por Hanóy, chefe do tráfico à empresa de viação que faz a linha Central - Vale dos Reis). Ele diz isso, enquanto abre a sua bolsa, pega uma boa quantia em dinheiro, entrega para o cobrador e diz: eu não sei quanto custa essa merda de passagem aí, mas, tá tranquilo, pode ficar com o troco.
O cobrador fica surpreso, pois o que ele entregou nas mãos dele, é mais até do que o seu próprio salário que ele levaria o mês inteirinho para conquistar.
-Muito obrigado, senhor!! Responde o cobrador. Dessa vez, mais alegre do que nunca.
-Aguarde só mais um pouquinho!! Disse Beto ao motorista.
Ele abre novamente a sua bolsa, pega vários maços de dinheiro, entrega nas mãos da senhora que havia conversado mansamente com ele e diz olhando para ela:
-Dona, eu vou seguir o conselho da senhora: vou comprar um carro pra mim agora mesmo.
-Pegue este dinheiro e compre um para a senhora também!!
Mesmo sem acreditar no que está acontecendo, a senhora pega naqueles maços de dinheiro.
Neste mesmo instante, ouve-se uma voz dizendo:
-Espere aí!! Fui eu quem lhe deu essa idéia!!
Beto e a senhora olham para o lado e veem a mulher que havia dito aquelas coisas para ele.
Beto olha para ela e responde tranquilamente:
-Tem razão, foi você mesma!
-Pois é... Diz a mulher. Agora, falando mansamente, meio que, insinuando-se.
-Realmente foi você que disse isso para mim.
-Só que eu não gostei da maneira como você falou.
Disse isso e em seguida desembarcou do ônibus.

Em seguida, no próximo ponto de desembarque, uma senhora desembarca de um coletivo. 
Feliz da vida com o presente que havia acabado de receber de um estranho.
Seria mesmo Obra dO Deus que ela serve? Ela acredita que sim.
Ao mesmo tempo, olha para o céu, dá um longo suspiro, abre um sorriso, faz o Sinal da Cruz e embarca no primeiro táxi que passa por ali.


*Significado do dialeto Carioquês utilizado neste fragmento:

Tô brotando = estou aparecendo, estou chegando
Caô = problema, assunto
Desenrolar = resolver, conversar
Palmear = Conferir, visualizar
Pagar um pingo = tomar um banho, dar um mergulho
Calote = sair sem pagar
Bíblia = Crente, Cristão, Servo de Deus

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

O orgulhoso de Seropédica (crônica)

 









Estava conversando com um amigo em um barzinho próximo a minha residência, quando de repente surgiu o assunto do cara que ganhou sozinho no bolão (aquele, do jogo da Seleção Brasileira contra a Alemanha na copa do mundo Fifa 2014) aí ele me perguntou o que eu faria se eu ganhasse uma quantia considerável de dinheiro. Lembrei que pouco antes de chegarmos a esse assunto, ele estava reclamando da televisão dele, me disse que, ela é antiga, que não estava nem assistindo aos jogos em sua residência, de tão ruim que ela está.
Então, lembrando disso, falei: cara, se eu ganhasse uma quantia realmente grande de dinheiro, eu lhe presentearia com uma smart tv led da melhor que tivesse à venda no mercado, com 3D, home theater e tudo!
Ele fez uma baita cara de desprezo, olhou sério pra mim e respondeu: de forma alguma eu aceitaria esse presente; sou muito orgulhoso, tudo que possuo, vem do meu suor.
Percebi que ele estava falando sério mesmo!
Mudamos de assunto, continuamos nossa conversa, até que ele me pediu um cigarro.
Respondi: caramba, querido, parei de fumar. Mas, faça o seguinte: tome aqui dez reais e compre um maço pra você.
Ele me agradeceu feliz da vida, pegou o dinheiro, saiu correndo atrás do seu maço de cigarro e não voltou mais.
Moral da história: para um fumante, por mais orgulhoso que seja, mais vale um maço de cigarro na mão do que uma smart tv led da melhor que há à venda no mercado, com 3D, home theater e tudo: voando.


Márcio Diniz.
 

Outro fragmento de "O palácio dos vales", o romance que escrevi

-A senhora deseja mais alguma coisa?
Diz a gentil atendente da loja, ao mesmo tempo em que entrega um embrulho de presente.
-Até que eu gostaria de levar aquele óculos, só que hoje não vai dar. Meu dinheiro está curto e tudo nessa loja é muito caro... Diz a  cliente, enquanto recebe o embrulho em suas mãos.
-Moça, de qual óculos que você gostou?
A mulher olha para o lado e vê um belo jovem, muito bem vestido, sorrindo para ela.
Seu sorriso parece o de um anjo.
-Eu te conheço de algum lugar? A mulher pergunta, surpresa.
-Ora, por quê? Responde o rapaz.
-Perdoe-me, é que eu não costumo aceitar presentes de estranhos... Diz isso e em seguida, sai de perto do jovem, em direção à porta de saída da Boutique.
Ele a toca com delicadeza no braço e diz:
-Então tá: posso saber qual é o seu nome?
-Pillar. Responde.
Pois é, Pillar: é que quando ouvi você falar do óculos, eu pensei: esse óculos é realmente lindo. Mas, sem você, por mais lindo que ele seja, ele é apenas um óculos
-Eu também acho que sou linda, obrigada. E acho que mesmo sem o óculos, continuarei linda, e daí? Respondeu Pillar em tom de ironia, já pensando em deixar o rapaz, ali, falando sozinho.
-Pois é... Continuou... Dessa vez, se aproximando dela. E bem pertinho do seu ouvido, ele sussurra:

-Esse óculos, apesar de ser lindo, sem você, será apenas um óculos. Você sem ele, continuará sendo essa mulher linda, continuará sendo você.
Agora, imagine se pudermos unir você e ele?
Imagine: você, com este belo óculos enfeitando ainda mais esse seu lindo rostinho...
Aceite, Pillar. Não é nada demais aceitar um mimo, vez e quando.
De repente, Pillar se encantou com aquele rapaz. Não pelo presente em si. Mas, pela sua atitude, sua maneira de falar. Ela jamais havia conhecido alguém assim, como ele. Parecia tão sincero, tão seguro, tão sedutor, tão... Ela não conseguia encontrar mais nenhum adjetivo que definisse o comportamento daquele jovem, ou, a atração que, subitamente, ele passou e exercer sobre ela.
E ele realmente a atraiu.
-Está bem, eu aceito. Disse isso e em seguida, deu um belo sorriso.
Ele retribuiu o sorriso.
-Pode embrulhar este óculos para esta moça, senhora?
Ordena, enquanto retira do bolso uma grande quantia em dinheiro. Muito dinheiro mesmo.
Ela acha estranho e pensa: como pode alguém andar com tanto dinheiro assim?
No momento em que ele paga pelo óculos, ele o pega com a atendente e com as próprias mãos, coloca-o delicadamente no rosto de Pillar.
Se aproxima dela e dessa vez, é ela que sussurra em seu ouvido:
-E eu? Posso saber o nome da pessoa que acaba de me presentear com este lindo óculos?
-O jovem sorri, olha para ela e diz: não.
-Pelo menos, não agora.
Ela, desapontada, suspira e em seguida, diz:
-Mas, isso não é justo. Eu já lhe disse o meu nome.
E ele, agora sorri ainda mais:
-Pois é, se alguém lhe disse que há alguma justiça nesse mundo,é bem certo que esse alguém esteja tentando te iludir.
-Não posso te dizer o meu nome. 

Pelo menos: não agora.
Neste instante, seu telefone toca. Ele atende, conversa por alguns segundos, vai até a porta, chama dois homens para dentro da loja, saca uma pistola, dá dois tiros para o alto e em seguida aponta em direção ao rosto da atendente e diz tranquilamente:
-Moça isso é um assalto!! Passe toda essa grana que você tem aí.
-Não se mexa! Eu não gostaria de fazer mal a ninguém presente neste agradável recinto.
-Se todos cooperarem, isso terminará logo. Ainda tenho muito o que fazer hoje.
-Dessa vez, sua voz está ainda mais firme.
Mesmo muito nervosa e trêmula, a atendente faz tudo o que ele ordena.
Outros clientes são revistados e tem seus bens subtraídos pelos outros dois indivíduos que adentraram na loja, momentos antes.
Enquanto a atendente entrega o dinheiro e as jóias para o jovem, ele ordena que um dos homens chame uma das atendentes e ordena para que ela leve o homem até outra sala e abra o cofre da loja.
Enquanto isso, ele olha para o lado e vê a moça que acabou de conhecer.
Ela está de cabeça baixa e aparentemente muito assustada.
Ainda olhando para ela, ele pergunta para a atendente:
-Moça, quanto custou aquele óculos que comprei para aquela bela mulher?
Mesmo assustada e sem entender nada, a atendente diz o valor.
Ele enfia a mão em seu bolso. Mais uma vez retira o dinheiro, e a entrega.
Ele vai até Pillar, olha carinhosamente para ela e diz, como que se confessando:
-Seria uma grande indelicadeza da minha parte, não pagar pelo presente que acabei de lhe dar.
Dito isto, dessa vez, ele olha firme para Pillar, chama a sua atenção e complementa:
-Entendeu agora moça, porque eu não podia falar o meu nome pra você?
-Espero poder encontra-la por aí.
-Você vem sempre aqui?
-Sim.
Respondeu, assustada:
-Venho. Sempre que posso.
-Moça, cuidado, por onde você anda...
-A violência hoje está tão grande, que não estamos mais seguros em lugar nenhum.
Enquanto ele fala, seu telefone toca novamente. Ele atende, fala por mais alguns segundos, chama os homens novamente e diz para todos que estão no interior da loja:
-Senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao Rio de Janeiro.
-Essa cidade ama receber cada um de vocês!!
Voltem sempre!!
Agora, se quiserem permanecer vivos para terem a oportunidade de voltar à cidade maravilhosa, para gastar toda essa grana de vocês, é extremamente importante vocês não saírem de dentro dessa boutique por cerca de dois minutos.
-O que são dois minutos, em relação a uma vida inteira, não é mesmo?
-O que são alguns milhares de reais, em vista da fortuna que vocês ostentam, ou ainda poderão ostentar durante o resto da vida de vocês?
-Desde que vocês, por dois minutos apenas: Permaneçam aí, quietinhos, onde vocês estão...
Dito isso, ele e seus comparsas saem tranquilamente da loja, enquanto educadamente, cumprimentam um cliente que acaba de adentrar no estabelecimento, sem imaginar o que acabou de acontecer.
E assim, Pixote entra na vida de Pillar, para nunca mais sair...


Márcio Diniz.

Imagem: divulgação

Mil planos (letra de música)

Foi tudo de repente  Um pouco fora do normal Mas a favor do vento Tudo pode  acontecer A vida prega peças  Que não dá pra explicar ...